PERFORMANCE POLÍTICA
DIGITAL:
A PRESENÇA DAS
DEPUTADAS FEDERAIS BRASILEIRAS NO X
POLITICAL
PERFORMANCE ON SOCIAL MEDIA:
THE
PRESENCE OF BRAZILIAN FEMALE MPs ON X
PERFORMANCE POLÍTICA
EN LAS REDES SOCIALES:
LA PRESENCIA DE LAS
DIPUTADAS BRASILEÑAS EN EL X
Fecha de ingreso:
28/11/2024.
Fecha de aceptación: 23/09/2025.
Cristiane Brum Bernardes
Professora do Mestrado Profissional em Poder
Legislativo da Câmara dos Deputados, Observatório Nacional da Mulher na
Política (ONMP), Brasil, cristiane.bernardes@camara.leg.br.
Giulia Sbaraini Fontes
Doutora em Ciência Política (UFPR), Università
Degli Studi di Milano, Itália, giuliasfontes@gmail.com.
Gabrielly Leticya Lopes dos Santos
Bacharel em Ciência Política (UDF), Senado
Federal, Brasil, gabrielly.leticya@gmail.com.
Reriston de Souza Martins
Bacharel em Sociologia (UnB), Ministério da
Igualdade Racial, Brasil, reristonmartins6@gmail.com.
Resumo
Tendo em vista a crescente importância das redes sociais
digitais na comunicação entre representantes políticos e seus eleitores, esta
pesquisa analisa como as deputadas federais brasileiras usam o X para tratar de
questões relacionadas a gênero. Realizamos uma etnografia digital dos perfis de
oito parlamentares da 56ª legislatura da Câmara dos Deputados, sendo quatro de
direita (Carla Zambelli, Bia Kicis, Caroline de Toni e Joice Hasselmann) e
quatro de esquerda (Gleisi Hoffmann, Jandira Feghali, Sâmia Bomfim e Luiza
Erundina). O acompanhamento dos perfis ocorreu entre março e novembro de 2022,
com a seleção de 249 postagens que tratavam de questões relacionadas a gênero.
A análise revelou que os diversos tipos de violência sofridos pelas mulheres e
as eleições presidenciais receberam mais atenção das parlamentares. Os
resultados permitem identificar diferenças de comportamento online a depender
do perfil ideológico das deputadas.
Palavras-chave:
Performance Política Digital; Uso
parlamentar de mídias sociais; X; Gênero e política; Câmara dos Deputados.
Abstract
Considering the growing relevance of
social media in the communication between political representatives and their
voters, this article examines how Brazilian female MPs use X to address gender-related
issues. For this purpose, we carry out a digital ethnography of the profiles of
eight MPs from the 56th legislature – four right-wingers (Carla Zambelli, Bia
Kicis, Caroline de Toni e Joice Hasselmann) and four left-wingers (Gleisi
Hoffmann, Jandira Feghali, Sâmia Bomfim e Luiza Erundina). The profiles were
monitored between March and November 2022, resulting in the selection of 249
posts dealing with topics related to women. The analysis revealed that the
several types of violence against women and the elections received more
attention from the parliamentarians. The results also point to different online
behaviors depending on the MPs’ ideological profile.
Keywords: Digital political performance; Parliamentarians and
Social Media; X; Gender and Politics; Brazilian Chamber of Deputies.
Resumen
Considerando la creciente importancia
de las redes sociales digitales en la comunicación entre los representantes
políticos y sus electores, esta investigación analiza cómo las diputadas federales
brasileñas utilizan X para abordar temas relacionados a género. Con este fin,
realizamos una etnografía digital de los perfiles de ocho parlamentarias de la
56° legislatura de la Cámara de Diputados – cuatro de derecha (Carla Zambelli,
Bia Kicis, Caroline de Toni y Joice Hasselmann) y cuatro de izquierda (Gleisi
Hoffmann, Jandira Feghali, Sâmia Bomfim y Luiza Erundina). Los perfiles fueron
monitoreados entre marzo y noviembre de 2022, con la selección de 249 tweets
que trataban temas relacionados a género. El análisis reveló que los diversos
tipos de violencia que sufren las mujeres y las elecciones reciben más atención
por parte de las diputadas. Los resultados permiten identificar diferencias en
el comportamiento en línea según el perfil ideológico de las representantes.
Palabras clave: Performance
Política Digital; Uso parlamentario de las redes sociales; X; Género y
política; Cámara de los Diputados.
Introdução
As plataformas de
mídias sociais têm sido usadas de forma intensa pelos atores políticos
brasileiros para entrar em contato com os cidadãos desde, pelo menos, a
campanha eleitoral de 2014 (Almeida, Pereira, Ferreira e Quintão, 2020; Barros,
Bernardes, Faria e Busanello, 2021a; Bernardes, 2021; Marques, Aquino e Miola,
2014). Na contemporaneidade, espaços físicos e digitais de debate e
disseminação de conteúdos se sobrepõem no campo político, sendo utilizados para
comunicar opiniões, realizar ações, disseminar discursos, divulgar decisões,
angariar apoios e estabelecer identidades e relações políticas.
As eleições
brasileiras de 2018 foram, por seu turno, um marco na discussão sobre o uso de
mídias sociais em campanhas, por terem mostrado que candidaturas de novatos,
com pouco tempo no Horário Eleitoral Gratuito e menos financiamento, poderiam
ser viáveis (Cesarino, 2020). Também foi naquele ano que as mulheres
conseguiram um aumento de 50% nas cadeiras ocupadas na Câmara dos Deputados,
fator que se conecta com a entrada de outsiders, mas também revela as mudanças
promovidas no financiamento das campanhas pelo Tribunal Superior Eleitoral
(TSE). No começo da 56ª Legislatura (2019-2023), portanto, a atenção da mídia e
dos pesquisadores voltou-se para a prática de parlamentares de distintos
partidos e correntes ideológicas que tiravam fotos e selfies e realizavam
transmissões ao vivo diretamente da Câmara dos Deputados. Em tais transmissões,
analisadas a partir do conceito de
egocasting por Barros et al. (2021a), os parlamentares dirigem-se aos eleitores e seguidores, agradecem pela confiança,
reforçam as temáticas que os conduziram até o Congresso Nacional e explicam o
funcionamento da instituição e do processo legislativo, dado também encontrado
na pesquisa de Sousa (2020). Nessas ocasiões, é como se os eleitores estivessem
presentes no plenário, tamanha a aproximação entre representantes e
representados.
Nesse contexto, ganha
proeminência na esfera pública o conceito de “autenticidade performativa” (Enli, 2015; Enli e Rosenberg, 2018),
segundo o qual um político não precisa necessariamente dizer a verdade para ser
considerado honesto e autêntico pelo público. Para isso, basta que ele tenha
uma performance que pareça espontânea, cotidiana, íntima, consistente e
amadora, especialmente em suas aparições nas mídias sociais (Enli e Rosenberg,
2018: 3). Segundo o estudo das autoras com o público que consome informação
política, é nas mídias sociais que os políticos parecem atuar de forma mais
autêntica, seja porque o conteúdo nelas é produzido por eles mesmos, seja
porque as opiniões disseminadas contam com o endosso de amigos e familiares dos
usuários (Enli e Rosenberg, 2018: 4).
Em relação às parlamentares mulheres,
foco deste estudo, é importante avaliar como elas constroem suas performances
públicas em espaços institucionais e nas mídias sociais, assunto de estudos
anteriores (Bernardes, 2023; Sarmento, Bernardes e Fontes, 2023). Como usam
discursos públicos e reivindicações de representação para performar essa
autenticidade que parece ser uma exigência contemporânea? Rai e Spary (2019)
argumentam, ao analisar a atuação das deputadas indianas, que as plataformas
são espaços dinâmicos para a performance pública da representação política.
Para as autoras, as mídias sociais são uma importante arena de visibilidade e
um espaço de feedback sobre o conteúdo produzido pelos atores políticos.
Em uma perspectiva da representação
como performance pública (Saward, 2006; 2014; Rai, 2017), a reivindicação
representativa é a principal atividade dos políticos eleitos. Para Saward, a
representação é performática, num sentido teatral, o que significa que é feita
e precisa ser mostrada para se realizar. Assim, a representação política sempre
se realiza num sentido discursivo, pois é o discurso que estabelece ou
contribui para sua existência (2014: 725). O autor afirma ainda que a
representação é constituída pelas práticas dos atores políticos, sendo
variável, dinâmica, contingente, cultural e estética, o que significa que a
representação é produzida a partir da performance de determinadas posições que
são ocupadas pelos representantes e mostradas aos representados (Saward, 2014: 725-726).
Assim como Saward e Rai e Spary,
também Vergè e Pastor (2018) adotam uma perspectiva da representação como
performance pública. Para as autoras, uma mulher que ocupa um cargo político
tradicionalmente associado a um perfil masculino introduz mudanças simbólicas
significativas no campo político, invertendo percepções tradicionais sobre as
habilidades e características necessárias para o exercício dessa atividade.
Nesse sentido, a representação política nunca pode ser analisada apenas sob um
viés descritivo ou substantivo, mas precisa levar em conta a dimensão simbólica
da atividade política, especialmente quando envolve as minorias políticas
(Vergé e Pastor; 2018; Vergè, 2022).
Considerando a especificidade da etnografia em
incorporar uma abordagem teórica, concordamos com Rai e Spary (2019)
quando afirmam que o Parlamento é uma instituição ao mesmo tempo funcional e
simbólica, inserida em redes de poder — o que torna impossível abordar a
representação política de modo meramente descritivo. Como destaca Saward
(2006), as legislaturas fazem parte do contexto político de cada sociedade, e a
representação é uma relação dinâmica e precária, sujeita às transformações
sociais, econômicas e culturais que afetam as comunidades e seus membros. Por
isso, é necessária uma visão mais abrangente dos parlamentos, dos políticos e
de suas relações para entender o que a representação política significa em uma
sociedade específica.
Atuando como
verdadeiros articuladores de identidades coletivas (performers) e produtores de
informações, versões e opiniões sobre os fatos cotidianos da política, os
atores políticos passam a incorporar algumas das funções anteriormente
desempenhadas pela imprensa, especialmente em contextos locais nos quais os
grandes veículos não atuam (Thorson, Medeiros, Cotter, Chen, Rodgers, Bae e
Baykaldi, 2020). Nesse sentido, a descentralização da produção informativa
sobre a política e a personalização da comunicação política em geral (Bennet,
2012) reforçam as tendências identificadas por Barros et al. (2021a: 8) de “individualização do mandato e de
desinstitucionalização das atividades políticas”.
Com a multiplicação
dos estudos sobre as mídias sociais (Enli e Skogerbo, 2013; Bossetta, 2018),
uma tendência recente das pesquisas tem sido abordar questões relacionadas ao
discurso de ódio (Fuchs e Schäfer, 2020; Southern e Harmer, 2021; Unkel e
Kumpel, 2022) e à desinformação (Almeida, 2018; Cesarino, 2020; Nemer, 2021),
especialmente durante a pandemia de Covid-19. Segundo tais perspectivas, o
contexto de extrema personalização da comunicação política facilita a
disseminação de fake news,
especialmente por meio de aplicativos de mensagens (Almeida, 2018; Cesarino,
2020; Nemer, 2021).
No caso do X – que,
até 2023, se chamava Twitter –, plataforma na qual se concentra este estudo,
Rossetto (2018) ressalta que seu uso serve para comunicação com os prováveis
eleitores e manutenção de relações sociais com os demais atores políticos, já
que o microblog se mostra menos eficiente como canal para discutir questões
políticas e trocar argumentos. Em estudo anterior, a autora e seus colegas
ponderavam que o grau de influência dos tweets políticos sobre a visão política
dos seguidores e a produção de uma imagem pública conveniente aos seus
interesses eram questões em aberto (Rossetto, Carreiro e Almada, 2013).
Segundo Leidig e
Bayarri (2022), o X é a plataforma onde circula o conteúdo político de fato, e
não apenas o conteúdo de caráter mais pessoal e personalizado comum nas demais
redes sociais digitais, sendo o ambiente de escolha dos políticos (Van Vliet,
Törnberg e Uitermark, 2020). Já Bernardes afirma que “o Twitter [X], portanto, cumpre uma função de amplificação das
mensagens oficiais que outros veículos não conseguem mais fazer, em um ambiente
de competição constante pela atenção dos usuários” (2020:16). O
levantamento Twiplomacy (Burson, Cohn e Wolfe, 2018), por exemplo, demonstra
que os governos e líderes fazem uso da ferramenta por acharem cada vez mais
difícil terem suas mensagens ouvidas pela população. Uma das estratégias usadas
nos perfis oficiais é marcar em imagens outros usuários que têm interesse no
tema e que podem replicar o conteúdo (Bernardes, 2020).
Sabemos
que as parlamentares utilizam de forma cotidiana Facebook, Instagram, Youtube,
X e TikTok, além de fazerem uso constante de WhatsApp, Telegram e LinkedIn em sua comunicação com os cidadãos,
dentro do fenômeno conhecido como “mandatos
digitais” (Barros et al., 2021a, 2021b). Segundo os autores, o mandato
digital consiste “no uso de um conjunto
de plataformas e ferramentas digitais para os parlamentares se comunicarem de
forma direta e customizada com suas bases eleitorais, seus apoiadores e
seguidores” (Barros et al., 2021a: 9). No contexto parlamentar, portanto,
as equipes de assessoria adotam estratégias complementares e segmentadas de
gestão da comunicação por meio das plataformas, voltadas para públicos
específicos. Por meio das mídias sociais, os eleitores conseguem acompanhar
suas atividades dentro e fora do Parlamento. Contudo, como enfatizam Unkel e
Kampel, “enquanto alguns políticos fazem
uso regular de algumas ferramentas interativas nas plataformas de mídias
sociais, a maioria tende a focar na disseminação de informação, menos
interessada em um engajamento com o público” (2020: 2).
A partir desse
referencial teórico, o objetivo deste estudo é analisar qualitativamente a
atuação de deputadas federais da 56ª legislatura (2019-2023) da Câmara dos
Deputados brasileira no X. Para isso, selecionamos oito perfis, de quatro
deputadas alinhadas à direita e quatro alinhadas à esquerda (Bolognesi, Ribeiro
e Codato, 2023), todas com forte presença nas plataformas, para verificar como
elas mobilizam os temas relacionados a pautas tradicionalmente associada às
mulheres.
Este artigo é um
recorte da pesquisa sobre a Bancada Feminina da Câmara dos Deputados realizada
no âmbito do Grupo de Pesquisa “Etnografia
Global Comparada de Parlamentos, Políticos e Cidadãos: representação,
relacionamentos e rupturas” (EOPPP)[1], do qual os autores fizeram parte. Em relação às
mulheres, estudos anteriores indicam que elas têm menos acesso à mídia
tradicional e até recentemente tinham menos impacto no X do que os homens
(Marques et al. 2014; Usher, Holcomb e Littman, 2018), mas estão cada vez mais
usando as mídias sociais para se tornarem influentes (Lopez, Vidal e Coelho,
2016; Yarchi e Samuel-Azran, 2018). Ao
pesquisar o uso de mídias sociais pelos deputados estaduais norte-americanos,
Cook (2017) revela que as mulheres são usuárias mais frequentes, ainda que
postem em menor quantidade do que seus colegas homens. Movimento similar foi
detectado por González e Ferré-Pavia (2023) na Colômbia, onde as mídias sociais
são percebidas pelas parlamentares mulheres como alternativas à mídia
tradicional para o contato com os cidadãos.
As autoras apontam, contudo, que a variável gênero não está relacionada a diferenças
no uso do Twitter. González e Ferré-Pavia (2023) argumentam que a chave para
compreender a desigualdade entre políticos na rede social é a ideologia, uma
vez que mulheres conservadoras e mais à direita têm mais sucesso na rede social
do que as de centro ou esquerda. Em estudo anterior deste grupo, contudo,
encontramos resultados que desafiam essa percepção (Bernardes e Fontes, 2024).
Mencionaremos esses dados mais adiantes, na análise dos resultados.
No próximo item vamos
detalhar a metodologia da investigação, para passarmos à análise dos dados no
item seguinte. Na conclusão, destacamos os principais resultados da pesquisa e
apontamos possíveis desdobramentos do estudo.
Considerações
Metodológicas
O panorama de
digitalização da vida social vivenciado no século XXI estimulou estudos sobre
práticas culturais e políticas em ambientes digitais (Hine, 2005; Postill e
Pink, 2012; Pink, Horst, Postill, Hjorth, Lewis e Tacchi, 2015). Em boa parte
dessas pesquisas, a sociabilidade contemporânea e as práticas sociais dos
cidadãos nesses espaços são analisadas em profundidade, por meio de
observações-participantes e etnografias. Tais espaços sociais constituem um
campo de pesquisa específico, pois a própria internet já é considerada um
contexto cultural (Hine, 2005). Assim, as mídias sociais são um espaço de
interação e discurso público, ainda que organizadas segundo a lógica comercial
das plataformas mantidas por grandes conglomerados empresariais.
Para a realização
deste estudo, dois pesquisadores acompanharam sistematicamente, entre os meses
de março e novembro de 2022, as contas no X (ex-Twitter) das 77 deputadas
federais mulheres que exerceram a legislatura de 2019 a 2022. Os dois
pesquisadores seguiram todos os perfis das deputadas em diferentes plataformas,
tomando notas sobre aspectos que chamaram a sua atenção nas postagens enquanto
cidadãos. Essas observações foram compartilhadas em uma série de reuniões de
debate com as duas pesquisadoras responsáveis pela análise. A partir desse
primeiro monitoramento, devido a limitações de espaço e do processamento
qualitativo das informações, foram selecionados oito perfis para a realização
de uma etnografia digital (Hine, 2005; Murthy, 2008; Postill e Pink, 2012; Pink
et al., 2015; Varis, 2015; Ferraz, 2019), cujos resultados são apresentados
neste artigo.
O diálogo contínuo
entre os pesquisadores fez com que passássemos a seguir de forma sistemática os
oito perfis escolhidos para uma análise detalhada. A escrita das notas de campo
pelos pesquisadores durante todo o tempo da observação foi essencial para
definir os critérios de escolha das parlamentares observadas – alcance dos
perfis e posicionamento ideológico – e também para dar sentido aos processos em
observação, delimitando o que seria analisado. Um dos desafios da observação de
práticas comunicativas digitais é exatamente a definição dos limites empíricos
do campo, uma vez que territórios e temporalidades não estão mais fisicamente
definidos (Markham, 2020). Por isso, a troca de impressões e percepções individuais
e coletivas sobre as atuações políticas e o conteúdo das postagens foi outra
prática metodológica importante para o grupo, processo inerente à etnografia
colaborativa (Bernardes, Cornwall, Crewe e Hoyler, 2025).
A coleta dos dados,
portanto, foi feita a partir de uma perspectiva de observação etnográfica do
ambiente digital utilizada na pesquisa social e identificada na literatura como
lurking (Airoldi, 2018; Dalsgaard,
2016; Orgad, 2005; Sanders, 2005). A técnica consiste em ocupar o posto de
observadores invisíveis, isto é, com o mínimo de interação possível com os
perfis ou páginas observados. Durante o período de observação, nenhum dos
pesquisadores publicou comentários, compartilhamentos ou respostas às
postagens. O grupo também levou em conta questões éticas referentes a este tipo
de abordagem, sem expor comentários dos cidadãos.
A proliferação das
plataformas de mídias sociais e a quantidade massiva de dados que nelas se
produzem coloca desafios metodológicos importantes para a pesquisa qualitativa.
No caso deste estudo, ao contrário de uma etnografia tradicional, a posição dos
pesquisadores em relação aos informantes não é próxima o bastante para o
estabelecimento de um relacionamento sujeito a constrangimentos ou interações
recíprocas. Ao extremo, é possível dizer que a presença dos pesquisadores sequer
foi notada pelos informantes no ambiente digital. O fato de esses perfis serem
públicos e pertencentes a integrantes do Poder Legislativo, isto é, elites
políticas, cria condições para sua observação que não seriam possíveis caso
elas fossem cidadãs comuns, sem mandato eletivo.
Durante o processo, foi interessante perceber as nuances de
produção de imagem das parlamentares, o que levou a equipe a fazer comparações
e aprofundar a percepção de diferentes perfis de atuação política, detalhados
na apresentação dos dados. A observação cotidiana dos perfis permitiu ainda
perceber as diferentes estratégias mobilizadas pelas deputadas para construção
das identidades e laços com cidadãos. Conforme apontam Peirano (2014) e Varis
(2015), a etnografia é uma perspectiva epistemológica, não apenas um método de
estudo de uma realidade social ou, no caso da etnografia digital, um método de
coleta de dados das mídias sociais. Trata-se, assim, de um ponto de vista
epistemológico sobre o ambiente digital (Varis, 2015).
Em relação à etnografia digital, Postill e Pink (2012)
apontam que as práticas diárias do etnógrafo digital são compostas por
diferentes ações, tais como atualizar-se, compartilhar, explorar, interagir e
arquivar: “Não se trata de uma
experiência “virtual”, por assim dizer, mas de uma vivência prática e cotidiana”
(Postill; Pink, 2012: 5-6). Nesse sentido, as maiores dificuldades de aplicação
da etnografia digital residem 1) na desconexão entre as noções tradicionais de
participação e as novas formas de interação tornadas possíveis nas mídias
digitais e 2) na falta de interação presencial e ausência de uma noção
tradicional de lugar (Abidin e Seta, 2020: 9). Como também aponta Markham
(2020), a participação no ambiente digital pode se dar de formas variadas, o
que inclui a observação sem uma participação ativa, conhecida como lurking.
Obviamente, a questão do observador à espreita, isto é, do
lurker, suscita muitas dúvidas éticas e até mesmo o questionamento se isso
seria etnografia, uma vez que os informantes não se comportam da mesma forma
que em uma etnografia clássica, porque não sabem que estão sendo observados. Enquanto
alguns pesquisadores idealizam a técnica, exatamente porque se aproximaria da
situação natural com a observação invisível, Seta (2020) comenta que o status
de participante do lurker é algo interessante de observar, porque seria, na
verdade, a atitude clássica de um etnógrafo ao chegar ao campo: observar
atentamente as regras da comunidade antes de interagir com ela. Ocorre que essa
fronteira parece ser muito mais fluida do que imaginamos no ambiente digital
(Seta, 2020: 86), pois espreitar é apenas um modo de participar do campo,
juntamente com outras tantas possibilidades como ignorar, ler, curtir,
comentar, compartilhar, editar, conectar, etc.
A questão da participação na pesquisa digital, portanto, é bastante
aguda, porque boa parte das atividades realizadas pelos pesquisadores consiste
em leitura e recepção de conteúdos de outros usuários. Além disso, a interação
digital permite que o etnógrafo permaneça conectado à comunidade mesmo à
distância, sem uma presença física. Concordamos com as autoras sobre um ponto:
a questão das formas de participação, mais do que uma decisão metodológica, se
torna a preocupação central da etnografia digital, pois há uma infinidade de
modos de participar possíveis para pesquisadores e para informantes, por meio
das dinâmicas sociais e das possibilidades técnicas (Abidin e Seta, 2020;
Markham, 2020; Seta, 2020). Incluída aí a perspectiva da etnografia digital que
adotamos nesta pesquisa.
De qualquer forma, o
lugar ocupado pelos pesquisadores neste estudo é bastante similar ao dos
cidadãos e eleitores, integrantes de uma comunidade política que entram em
contato com suas representantes apenas por meio das mídias sociais. Em vários
momentos da pesquisa, aliás, os pesquisadores trocaram impressões subjetivas
sobre as postagens e expressaram sentimentos que foram despertados por esses
conteúdos, de forma colaborativa. As performances políticas construídas nas
mídias sociais das deputadas foram analisadas a partir do olhar de cidadãos
brasileiros, de diferentes estados e origens sociais, com diferentes posições
ideológicas.
Os perfis foram
selecionados de acordo com dois critérios: maior número de seguidores e
posicionamento da parlamentar no espectro político. Assim, foram escolhidos
quatro perfis de deputadas vinculadas a partidos posicionados mais à esquerda –
todos de oposição ao governo na 56ª Legislatura – e quatro de agremiações mais
à direita (Bolognesi, Ribeiro e Codato, 2023), apoiadoras do governo à época, conforme
consta na Tabela 1. O número de seguidores de cada perfil no X foi coletado em
2 de novembro de 2022, mas as contas já vinham sendo observadas desde
março.
Tabela
1. Dados dos oito perfis de X selecionados para análise
|
Deputada |
Número de
seguidores em novembro/2022 |
|
Carla
Zambelli (PL-SP) |
2.182.650 |
|
Bia Kicis (PL-DF) |
1.627.119 |
|
Gleisi Hoffmann
(PT-PR) |
1.043.952 |
|
Jandira Feghali
(PCdoB-RJ) |
615.957 |
|
Caroline de Toni
(PL-SC) |
612.441 |
|
Sâmia Bomfim
(PSOL-SP) |
560.072 |
|
Luiza Erundina
(PSOL-SP) |
412.180 |
|
Joice Hasselmann
(PSDB-SP) |
376.860 |
Fonte: Os autores (2024).
Todas
as deputadas mantinham o perfil ativo no X quando a coleta dos dados foi
finalizada, em novembro de 2022, à exceção de Carla Zambelli, que teve a conta
suspensa no mesmo mês por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral[2].
Cabe destacar, ainda, que o recorte temporal da análise compreende o período da
campanha eleitoral para as eleições gerais de 2022, mas se estende para além
dele, abrangendo meses anteriores e um mês e meio depois das eleições. Todas as
parlamentares que tiveram os perfis analisados disputaram a reeleição. Apenas
Joice Hasselmann não se reelegeu (Tabela 2).
Tabela 2. Votação das deputadas
selecionadas para a pesquisa nas eleições de 2022 e 2018
|
Deputada |
Número
de votos em 2022 |
Número
de votos em 2018 |
|
Carla Zambelli |
946.244 |
76.306 |
|
Gleisi Hoffmann |
261.247 |
212.513 |
|
Caroline de Toni |
227.632 |
109.363 |
|
Sâmia Bomfim |
226.187 |
249.887 |
|
Bia Kicis |
214.733 |
86.415 |
|
Luiza Erundina |
113.983 |
176.883 |
|
Jandira Feghali |
84.054 |
71.646 |
|
Joice Hasselmann |
13.679 |
1.064.047 |
Fonte:
Tribunal Superior Eleitoral (2018; 2022).
Em
relação ao posicionamento ideológico das parlamentares selecionadas, três delas
pertenciam ao PL, partido do ex-presidente Bolsonaro à época do estudo, e se
identificavam como bolsonaristas: Carla Zambelli, Caroline de Toni e Bia Kicis.
Importante destacar que usamos a classificação do espectro ideológico
partidário proposta por Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023), em estudo feito
antes da fusão entre PSL e PR para criação do PL. De qualquer forma, ambas as agremiações
foram classificadas à direita pelos autores, ainda que alguns autores apontem
que a ala bolsonarista do PL poderia ser identificada como extrema-direita.
Joice Hasselmann, filiada ao PSDB, começou a 56ª legislatura como apoiadora do
Bolsonarismo, porém, rompeu com a base do governo e no ano de 2022 era crítica
do ex-presidente, o que provavelmente influenciou em sua não reeleição. Mesmo fora
da base do governo, sua posição continuou identificada com o espectro da
direita, onde se localiza o PSDB na classificação adotada neste estudo.
Por sua vez, as
parlamentares de esquerda eram filiadas aos três principais partidos da
oposição à época do estudo: PT, PCdoB e PSOL. Entre as legendas com presença na
Câmara dos Deputados, são estas que se encontram mais à esquerda no espectro
político, ainda que a classificação de Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023)
coloque PT e PCdoB na esquerda e o PSOL na faixa denominada pelos autores de extrema-esquerda.
Do ponto de vista da discussão de gênero e das pautas da Bancada Feminina,
contudo, os posicionamentos de Gleisi Hoffmann, Luiza Erundina, Sâmia Bomfim e
Jandira Feghali são razoavelmente próximos e apontam para temas e perspectivas caras
ao feminismo tradicional. Por isso, optamos por classificar as deputadas apenas
entre esquerda e direita, sem enfocar as possíveis gradações de posicionamento
que possam existir entre elas.
O percurso
etnográfico realizado pelos pesquisadores buscou identificar postagens
relacionadas a questões de gênero, a partir de termos relacionados
semanticamente com o tema (gênero, mulher(es) e violência) e fatos que causaram
repercussão entre as parlamentares no período, pois observamos que tais
acontecimentos motivavam o diálogo entre as parlamentares e seus seguidores,
bem como a conversa delas com outros atores políticos. De forma geral,
observou-se, ainda, a temática preferencial e algumas características
específicas de cada um dos perfis, conforme os dados apresentados na próxima
seção. A criação das categorias de análise foi feita de forma conjunta, a
partir da discussão sobre as observações realizadas pelo grupo, sempre em uma
perspectiva da etnografia colaborativa (Bernardes, Cornwall, Crewe e Hoyler,
2025).
Resultados e Análise
dos Dados
A
utilização das mídias sociais em campanhas eleitorais vem sendo tema de pesquisas
na área de Comunicação e Política antes mesmo de 2014 (Braga, 2013; Marques et
al. 2014; Braga e Carlomagno, 2018; Almeida et al. 2020), quando Facebook e X
começaram a ser usados de forma intensiva durante os pleitos. Mais
recentemente, os estudos mostram que a comunicação política deixou de ser
focada apenas nos períodos eleitorais e tornou-se permanente e continuada
(Mitozo, Massuchin e Carvalho, 2017; Murta, Ituassu, Capone, Leo e La Rovere,
2017; Almeida, 2018; Nemer, 2021), distendendo o chamado “tempo da política” (Palmeira, 1996; Palmeira e Barreira, 2004)
para o período do mandato eletivo, i.e., entre as eleições.
A comunicação
política das parlamentares consolida-se, portanto, como uma atividade
permanente de engajamento, interação, prestação de contas e debate com os
eleitores por meio das mídias sociais (Barros et al., 2021a; 2021b). Os dados
obtidos na presente pesquisa reforçam esse diagnóstico: observando os perfis, a
sensação é de que as deputadas estão em uma campanha eleitoral permanente. Por
outro lado, é inegável que as práticas de comunicação realizadas por elas no
ambiente digital tornam as atividades políticas mais visíveis e mais permeáveis
à instância cidadã, abrindo espaço para um contato mais próximo entre
representantes e representados.
Durante a observação, também percebemos, como os símbolos podem criar
significados e transformar os imaginários sociais que condicionam os espaços
políticos (Vergè, 2022). Enquadrar a
política como uma atividade simbólica revela uma construção da representação que
pode desafiar práticas políticas hegemônicas, permitindo perceber a "relação mútua entre as perspectivas
descritiva, substantiva e simbólica da representação" (Vergè, 2022: 20).
Para minorias políticas, como as
mulheres, esse potencial é ainda maior, já que sua presença no Parlamento
introduz um elemento disruptivo no campo político. Afinal, a inclusão das
mulheres no campo político não apenas altera as posições dos atores, mas também
tem o potencial de influenciar os critérios de produção do capital político e a
abordagem discursiva da política (Bourdieu, 2005). Assim, a escolha dos temas e
a linguagem adotada nas postagens também pode desafiar ou concordar com os
estereótipos de gênero e com posições tradicionalmente identificadas como
próprias das mulheres.
Durante o processo de
observação foram identificadas 249 postagens das oito deputadas selecionadas
que se relacionam a questões ou temáticas de gênero (Tabela 3), com a presença
dos termos descritos na seção metodológica.
Tabela
3. Número de posts analisados por deputada
|
Deputada |
Número
de posts |
|
Sâmia Bomfim |
77 |
|
Jandira Feghali |
49 |
|
Gleisi Hoffmann |
36 |
|
Luiza Erundina |
27 |
|
Joice Hasselmann |
22 |
|
Carla Zambelli |
4 |
|
Bia Kicis |
18 |
|
Caroline de Toni |
16 |
|
Total |
249 |
Fonte:
Os autores (2024).
Entre
as questões abordadas por elas nos perfis, destacam-se problemas clássicos das
mulheres identificados pela literatura feminista e tematizados pela Bancada
Feminina da Câmara dos Deputados, como a violência doméstica ou política e a ampliação
da representação políticas das mulheres (Mano, 2020), que totalizaram mais da
metade das postagens analisadas, conforme os dados apresentados na Tabela 4.
Contudo, também aparece de forma relevante a permanente polêmica sobre o
aborto, além de novas questões surgidas no contexto de polarização entre a
esquerda e o neoconservadorismo (Biroli, Machado e Vaggione, 2020; Dietze e
Roth, 2020; Lacerda, 2019), tais como o debate sobre a ideologia de gênero, a adoção
de linguagem neutra nas escolas ou o homeschooling.
A partir da identificação de posts relacionados a questões de gênero, as
publicações foram classificadas de acordo com os temas abordados (Tabela 4). A
categorização foi exclusiva, ou seja, um post poderia ser incluído apenas em
uma categoria.
Tabela 4. Tema dos posts selecionados.
|
|
Sâmia
Bomfim |
Jandira
Feghali |
Gleisi
Hoffmann |
Luiza
Erundina |
Joice
Hasselmann |
Carla
Zambelli |
Bia
Kicis |
Carol
de Toni |
Total |
|
Violência
contra a mulher |
37 (48%) |
32 (65%) |
20 (56%) |
12 (44%) |
16 (73%) |
0 |
6 (33%) |
2 (13%) |
125 (50,2%) |
|
Eleições |
22 (29%) |
13 (27%) |
9 (25%) |
7 (26%) |
3 (14%) |
0 |
3 (17%) |
11 (69%) |
68 (27,3%) |
|
Liderança
feminina na política |
1 (1%) |
1 (2%) |
4 (11%) |
3 (11%) |
2 (9%) |
0 |
4 (22%) |
0 |
15 (6%) |
|
Atividade
Parlamentar |
8 (10%) |
1 (2%) |
0 |
3 (11%) |
1 (5%) |
1 (25%) |
0 |
0 |
14 (5,6%) |
|
Datas
comemorativas |
3 (4%) |
2 (4%) |
3 (8%) |
1 (4%) |
0 |
1 (25%) |
2 (11%) |
0 |
12 (4,8%) |
|
Aborto |
6 (8%) |
0 |
0 |
1 (4%) |
0 |
0 |
2 (11%) |
1 (6%) |
10 (4%) |
|
Outros |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
2 (50%) |
1 (6%) |
2 (13%) |
5 (2%) |
|
Total |
77 (100%) |
49 (100%) |
36 (100%) |
27 (100%) |
22 (100%) |
4 (100%) |
18 (100%) |
16 (100%) |
249 (100%) |
Fonte:
Os autores (2024).
Os temas tratados
pelas parlamentares se relacionam com as pautas defendidas por elas, sempre
enfocadas a partir de seu alinhamento ideológico, incluindo declarações
públicas de repúdio a pessoas ou situações ou notas de solidariedade. Além
disso, a reprodução de matérias jornalísticas foi recorrente para dar
credibilidade, veracidade e legitimidade a informações compartilhadas pelas
parlamentares, independentemente do posicionamento ideológico.
As postagens
incluídas na categoria violência contra a mulher (125 ocorrências, ou 50,2%)
foram segmentadas conforme tipos de violência. Foram identificados posts
relacionados à Lei Maria da Penha, que trata de violência doméstica; ao
feminicídio; e a episódios de violência política, física e psicológica contra
mulheres. Das 125 postagens classificadas na categoria ampla de violência
contra a mulher, 65 se referem a casos de violência física (Figura 1). Episódios
de violência política vêm em seguida, com 40 casos, o que demonstra a
importância que a pauta passa a ter no discurso público a partir da aprovação
da Lei da Violência Política (Lei 14.192/2021).
Figura 1. Post
da deputada Luiza Erundina sobre violência contra a mulher
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Os casos de violência
política de gênero foram recorrentes ao longo da 56ª Legislatura e motivaram
uma série de debates e proposições de autoria de parlamentares para
enfrentá-los. Cerceamento da fala em comissões e no plenário (Figura 2), além
de ameaças e assédio moral, também foram cometidos contra as deputadas.
Irregularidades ou falta de repasses de verbas para campanhas femininas
obtiveram destaque (Figura 3) por constituírem uma das formas de cometimento de
violência política dentro dos partidos. A campanha eleitoral de 2022 foi
marcada também pela violência política contra militantes, parlamentares e
equipes envolvidas no pleito, o que motivou uma série de publicações das
parlamentares.
Figura 2.
Post da deputada Sâmia Bomfim sobre violência política contra a mulher
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura 3. Post da deputada Caroline de Toni
sobre violência política contra a mulher
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Em geral, as
diferenças entre as postagens das deputadas de direita e esquerda vão além da
crítica ou do apoio ao governo ou aos diferentes candidatos que disputaram a
eleição presidencial em 2022, como mostram as publicações das figuras 2 e 3.
Para além dessa óbvia discordância, percebe-se que as deputadas de esquerda são
mais enfáticas em denunciar casos que atingem apoiadoras, candidatas de seus
partidos e outras políticas. Além disso, elas geralmente nomeiam as situações
como violência política de gênero, uma denominação que não é aceita por todas
as parlamentares de direita. Em muitos casos, há uma dificuldade de admitir o
diferencial da violência política em relação às mulheres, com a adoção de um
discurso que normaliza agressões sofridas como se fossem inerentes ao jogo
político (Bernardes, 2024).
Ao longo do percurso
etnográfico foi possível notar que, nas publicações sobre violência das
deputadas que analisamos para este estudo, alguns assuntos foram recorrentes e
trouxeram algum consenso, apesar dos distintos alinhamentos ideológicos. Um dos
casos em destaque foi o repúdio a falas sexistas proferidas pelo ex-deputado
estadual Arthur do Val[3]
por ocasião de sua viagem à Ucrânia, no começo da guerra travada com a Rússia.
A relevância do fato conciliou as visões das parlamentares de diferentes
partidos em torno do ocorrido (Figuras 4 e 5), principalmente no sentido de
condenar o político por sua atitude machista e indecorosa.
Figura 4. Post
da deputada Jandira Feghali sobre o caso Arthur do Val
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura 5. Post
da deputada Joice Hasselmann sobre casos de assédio cometidos por parlamentares
Fonte:
Reprodução/X (2024).
É razoável lembrar que dentro do campo
político as mulheres precisam lutar constantemente para conseguir falar e
manter a atenção dos ouvintes em contextos políticos (Bourdieu, 2010: 74),
sendo frequentemente interrompidas ou subestimadas por homens que reproduzem
esses comportamentos de forma inconsciente. Isso mina o direito das mulheres de
participar do discurso público, obrigando-as a usar diversas estratégias para
conquistar espaço e construir autoridade. A prevalência da violência política
contra mulheres em parlamentos ao redor do mundo, e especialmente no Brasil,
reforça essa luta, e também demonstra porque algumas optam por não denunciar as
agressões ou por não trazerem o foco da violência política para seus perfis nas
mídias sociais, uma vez que tal atitude pode gerar represálias e dificultar negociações,
inclusive com seus colegas de partido.
Ainda sobre a
categoria violência contra a mulher, é importante destacar as diferenças no
posicionamento entre parlamentares de partidos de esquerda e de direita sobre
armas de fogo. Nas postagens das parlamentares de esquerda sobre o tema,
verifica-se uma tendência de repúdio ao uso indiscriminado de armas e a
vinculação delas ao aumento da violência contra a mulher (Figura 6). Já as
deputadas alinhadas à direita relacionam o fim da violência contra a mulher com
a posse e o porte de armas, defendendo, ainda, medidas de ampliação das penas
previstas para os crimes e outras ações das forças de segurança. A divulgação
de notícias sobre mulheres que impediram o cometimento de crimes por estarem
armadas (Figura 7), a sugestão de realização de cursos de tiro ou defesa
pessoal e até a divulgação de fotos das próprias parlamentares nos centros de
treinamento de tiro (Figura 8) foram observadas com certa frequência ao longo
da coleta.
Figura 6. Post
da deputada Sâmia Bomfim sobre porte de armas
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura 7. Post
da deputada Carol de Toni sobre reação de mulher a atirador
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura
8. Post da Deputada Bia Kicis portando arma de fogo
Fonte:
Reprodução/X (2024).
A segunda temática
mais mencionada ao longo da pesquisa envolveu as eleições. O período eleitoral
foi de grande impacto no X das deputadas: 68 postagens (27,3%) trataram do
tema. Todo o processo de pré-campanha e campanha das parlamentares que se
candidataram à reeleição ou a outros cargos foi divulgado de forma ampla na
plataforma. A segmentação das agendas, no que diz respeito a gênero,
principalmente no caso das deputadas do campo da esquerda, foi muito presente.
O conteúdo incluiu encontros direcionados para mulheres (Figura 9), comentários
relacionando os debates eleitorais à temática de gênero (Figura 10), eventos
com candidatos presidenciais (Figura 11) e trends das redes sociais (Figura
12).
Figura
9. Post da Deputada Sâmia Bomfim em mobilização de mulheres
Fonte: Reprodução/X
(2024).
Figura 10.
Post da Deputada Carol de Toni sobre fala de Simone Tebet
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Com relação à Figura
10, vale destacar que, apesar de estar classificada na categoria eleições, essa
postagem também apresenta características da categoria outros, pela relação com
a ideia de ideologia de gênero, que desvirtuaria o debate político das ideias
para as características físicas dos concorrentes. É recorrente nas postagens da
deputada um discurso mais polarizado em defesa da família e da meritocracia
liberal em oposição à defesa de direitos de minorias políticas por meio das
cotas, incluídas aí as mulheres (Bernardes, 2024). Já as Figuras 11 e 12
mostram como apoiadores e outros políticos foram mobilizados durante a
campanha, chamando a atenção para pautas de interesse das mulheres e para a
participação política das mulheres como um fator de legitimidade das
candidaturas de homens.
Figura
11. Post da Deputada Bia Kicis em coletiva de Jair Bolsonaro
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura 12. Post
da Deputada Luiza Erundina em trend das redes sociais
Fonte:
Reprodução/X (2024).
No que se refere às
trends, além do uso de imagens com conteúdos virais, também foram utilizados
vídeos de outras redes, especialmente do TikTok, e republicados no X. Depois do primeiro
turno, quase todas as parlamentares postaram agradecimentos pelos votos
obtidos. A estética da campanha foi reaplicada nessas imagens, com o uso de
cards.
Por sua vez, a
categoria liderança feminina na política, com 15 postagens (6%), diz respeito a
homenagens realizadas pelas parlamentares sobre conquistas históricas (Figura
13), experiências pessoais em postos de poder, especialmente institucionais
(Figura 14), e também ao pioneirismo alcançado por mulheres em vários campos
sociais. Em certo sentido, o pioneirismo das mulheres em posições de poder –
incluídas aí as próprias deputadas – é usado como uma estratégia retórica de
oposição às políticas afirmativas pelas deputadas de direita, dentro da
estratégia do feminismo liberal mencionado por Solano, Rocha e Sendretti
(2023). Dentro desse discurso, o fato de as mulheres que ocupam postos de poder
serem as primeiras a fazer isso não teria a ver com o gênero propriamente dito,
mas com as habilidades excepcionais dessas pioneiras e com o fato de que há um
desinteresse generalizado das mulheres em ocupar essas posições.
Figura 13. Post
da Deputada Joice Hasselmann sobre vice-presidente da Colômbia
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura 14. Post
da Deputada Bia Kicis sobre fim de mandato na Comissão de Constituição e
Justiça e de Cidadania
Fonte: Reprodução/X
(2024).
O X também foi
utilizado como forma de divulgação da atividade parlamentar e para a prestação
de contas sobre os mandatos, ainda que de forma menos preponderante no conjunto
de postagens sobre a temática de gênero (5,6%). O rito das votações e
apresentações de projetos (de autoria própria ou de outros parlamentares)
direcionados para a temática de gênero (Figuras 15 e 16), a participação em
audiências públicas nas comissões (Figura 17) e a repercussão da atuação
parlamentar na casa legislativa como um todo (Figura 18) foram assuntos
postados nas redes de forma mais simplificada, facilitando o entendimento dos
processos legislativos.
Figura 15. Post
da Deputada Jandira Feghali sobre projeto aprovado no Senado Federal
Fonte: Reprodução/X (2024).
Figura 16. Post
da Deputada Carla Zambelli sobre aprovação de Projeto de Lei
Fonte: Reprodução/X
(2024).
Figura 17. Post
da Deputada Luíza Erundina sobre Audiência Pública
Fonte: Reprodução/X
(2024).
Figura 18. Post
da Deputada Sâmia Bomfim sobre repercussão de seu mandato
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Em menor número (12
postagens, 4,8%) constam publicações relacionadas a datas comemorativas, como o
Dia das Mães e o Dia Internacional da Mulher. As deputadas de esquerda
utilizaram mais essas datas como oportunidades para dar relevância à pauta de
gênero (Figura 19) e ressaltar aspectos das lutas feministas, com mais
publicações sobre o tema do que as deputadas de direita (Figura 20).
Figura 19. Post
da Deputada Jandira Feghali sobre o Dia Internacional da Mulher
Fonte: Reprodução/X (2024).
Figura 20. Post da Deputada Bia Kicis sobre o Dia
Internacional da Mulher
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Além disso, a análise
tornou evidentes divergências temáticas entre as deputadas conforme seu
posicionamento ideológico. Das dez publicações selecionadas sobre aborto (4%),
seis eram da deputada Sâmia Bomfim, que traz a descriminalização da prática
como uma pauta recorrente em sua atuação política. Para as parlamentares da
esquerda se mostra visível a preocupação com a saúde pública (Figura 21)
relacionada ao tema. Já as publicações das deputadas de direita sobre o assunto
se referem majoritariamente à pauta de costumes, advogando pela defesa da
família (Figura 22 e 23) e contra qualquer possibilidade de finalização da
gravidez por vontade da gestante.
Figura 21. Post
da Deputada Sâmia Bomfim sobre legalização do aborto
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura 22. Post
da Deputada Carol de Toni sobre aborto nos EUA
Fonte:
Reprodução/X (2024).
Figura 23. Post
da Deputada Bia Kicis sobre posicionamento do Brasil contrário ao aborto
Fonte: Reprodução/X
(2024).
As publicações
incluídas na categoria outros (2%) são de autoria de deputadas do campo da
direita. Os posts não se encaixam em outras categorias nem apareceram nos
outros perfis analisados. Divulgação de material publicitário sobre o Governo
Federal e postagens relacionadas à expressão ideologia de gênero (Figura 24)
estão neste grupo. Sobre esse último ponto, é interessante perceber que todas
as referências feitas pela deputada Carol de Toni ao termo gênero são críticas,
sempre com o uso do termo ideologia de gênero[4], que
ela afirma combater em sua atuação parlamentar. Isso está de acordo com as
observações feitas por vários pesquisadores que apontam para a centralidade
dessa expressão como um termo organizador da retórica dos políticos
neoconservadores em vários países (Bernardes, 2025; Dietze e Roth, 2020; Kovátz
e Põim, 2015).
Figura 24. Post
da Deputada Carol de Toni sobre ideologia de gênero
Fonte: Reprodução/X
(2024).
A pesquisa, portanto,
apontou divergências na abordagem de pautas relacionadas a gênero dependendo do
posicionamento ideológico das deputadas. Nos perfis alinhados à esquerda houve
segmentação dos temas principais, utilização dos recursos da plataforma e o uso
constante da repercussão midiática para as suas publicações. Além disso, a
quantidade de postagens foi bastante desigual entre as parlamentares. Dentre as
249 publicações analisadas, 75,9% (189 postagens) pertenciam às deputadas de
esquerda. Já as deputadas de direita comportaram-se de forma mais tímida em
número de publicações acerca das temáticas de gênero, com apenas 60 publicações
(24,1%) no período. Com o discurso polarizado por algumas parlamentares, as
postagens foram pontuais e a construção de pautas para os seguidores foi
realizada de forma menos coerente, com exceção de Carol de Toni, que seguiu uma
linha consistente na defesa de seus posicionamentos contrários à pauta
tradicional do feminismo, apesar das poucas publicações.
Comentários Finais
Este artigo examinou
qualitativamente a atuação de deputadas federais brasileiras no X. Analisamos,
por meio de uma etnografia digital, oito perfis de parlamentares mulheres na
plataforma, sendo quatro alinhadas à direita (Carla Zambelli, Caroline de Toni,
Bia Kicis e Joice Hasselmann) e quatro alinhadas à esquerda (Gleisi Hoffmann,
Sâmia Bomfim, Luiza Erundina e Jandira Feghali). A intenção foi identificar
postagens relacionadas a questões de gênero, temáticas preferenciais das
parlamentares associadas a esse tema mais abrangente e características
específicas de cada um dos perfis.
A pesquisa
identificou 249 postagens relacionadas a questões de gênero realizadas entre
março e novembro de 2022 por essas oito parlamentares. Por meio dos resultados
foi possível identificar diferenças entre deputadas de esquerda e de direita no
que diz respeito à abordagem de assuntos relacionados às mulheres nas redes
sociais. De forma geral, enquanto parlamentares de esquerda abordam com mais
frequência a questão da violência política de gênero e outros temas
relacionados à pauta feminista, com o uso da palavra gênero em diferentes
contextos, deputadas de direita postam pouco sobre esses temas e fazem uso da
expressão ideologia de gênero para criticar os posicionamentos conectados às
lutas de minorias políticas (Tabela 4).
Na sequência,
classificamos as publicações de acordo com os temas que abordavam. A maior
parte dos posts (50,2%) tratou de violência contra a mulher, incluindo
agressões físicas, psicológicas e de natureza política. Interessante notar,
nesse caso, como as deputadas de esquerda mobilizam o tema para denúncias de
casos, mas o assunto também acabou sendo instrumentalizado pelas parlamentares
para atacar adversários. A deputada Caroline de Toni, por exemplo, criticou a
suposta falta de repasse de recursos para candidatos negros e mulheres por
parte do PT nas eleições de 2022.
Também chama a
atenção como um mesmo assunto pode originar posicionamentos opostos, a depender
da identificação partidária e ideológica da parlamentar: enquanto deputadas de
esquerda condenam o uso de armas de fogo, associando-o ao aumento da violência
contra a mulher, deputadas de direita apontam que este seria um instrumento
para defesa das próprias vítimas. Assim, os posts analisados, ainda que tratem
sobre questões de gênero, refletem divergências mais amplas das parlamentares
em relação a pautas mais abrangentes.
Os dados também
demonstraram a centralidade do período eleitoral nas postagens das deputadas, o
que era esperado considerando que o recorte temporal da coleta incluiu a
campanha eleitoral e a própria realização do pleito. No entanto, nem sempre as
postagens diziam respeito às campanhas das próprias deputadas, ainda que as
cadeiras da Câmara estivessem em disputa. Ou seja, os resultados também apontam
como representantes do Parlamento acabam envolvidas na campanha presidencial e
participam ativamente das campanhas estaduais, ainda que estejam tratando de
questões associadas às mulheres.
Este estudo, de
caráter qualitativo e limitado a apenas uma plataforma de mídias sociais, traz
resultados que auxiliam na compreensão dos processos de performance política de
deputadas federais. Percebe-se que elas constroem identidades políticas
adaptadas a diferentes segmentos sociais nas mídias sociais, especialmente a
partir de posicionamentos ideológicos que demonstram as divergências que
circundam a questão de gênero, conforme apontado em outros estudos (Bernardes,
2024; 2025; Bernardes e Fontes, 2024; Biroli, Machado e Vaggione, 2020; Dietze
e Roth, 2020; Lacerda, 2019).
Um ponto importante
reforçado pelos resultados é a disputa discursiva em torno de termos e pautas
clássicas do feminismo, tais como igualdade de gênero, combate à violência e
participação política das mulheres. Percebe-se que a divisão ideológica entre
deputadas de esquerda e de direita está sendo reproduzida nas mídias sociais,
ainda que a estratégia da direita seja dar menos visibilidade aos termos usados
pela esquerda, centrando as postagens em pautas que não necessariamente têm a
ver com assuntos considerados de mulheres. De qualquer forma, mais estudos são
necessários para compreender as disputas e tensões que se estabelecem entre as
mulheres que realizam a representação política no Brasil.
Pesquisas futuras
podem se debruçar de forma quantitativa sobre os posts, verificando se essas características
se estendem às demais deputadas e se há novos padrões não identificados por
meio da etnografia digital aqui realizada. Além disso, uma nova agenda de
pesquisa pode contemplar a análise discursiva e semiótica dos materiais
audiovisuais e performances públicas realizadas pelas parlamentares, o que
traria dados adicionais sobre o posicionamento partidário e ideológico delas,
auxiliando na compreensão das disputas que organizam o campo político
contemporâneo.
Referências
Abidin, C., Seta, G. de. (2020) Private Messages from the Field:
Confessions on Digital Ethnography and its Discomforts. Journal of Digital Social Research, 2(1), 1-19.
Airoldi,
M. (2018). Ethnography and the digital fields of social media. International Journal of Social Research
Methodology, 21(6), 661-673. https://doi.org/10.1080/13645579.2018.1465622
Almeida,
R. (2018). Fake news: arma potente na batalha de narrativas das eleições 2018.
Ciência e Cultura, 70(2), 9-12. http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602018000200004
Almeida,
H. N., Pereira, M. A. G., Ferreira, M. A. S. & Quintão, T. T. (2020). “Tamo
junto?” Parlamentares e mídias sociais: uma tipologia dos padrões de atuação de
deputados federais no Facebook. Revista
Sociedade e Cultura, 23(1), 1-47. https://doi.org/10.5216/sec.v23i.59035
Barros, A. T., Bernardes,
C. B., Faria, C. F. S.
& Busanello, E. (2021a). Do egocasting aos gabinetes digitais: o uso de
lives, stories e podcasts pelos deputados federais brasileiros. Contextualizaciones Latinoamericanas,
2(25), 7-23. https://doi.org/10.32870/cl.v2i25.7863
Barros,
A.T., Bernardes, C. B., Faria, C. F.
S. & Busanello, E. (2021b). Digital Mandates and Their
Management: Strategies for Usage of Social Media by Brazilian Federal
Legislators. Parliamentary Affairs,
75(4), 887-930. https://doi.org/10.1093/pa/gsab046.
Bennett, W. L. (2012) The
personalization of politics: Political Identity, Social Media, and Changing
Patterns of Participation. The Annals of the American Academy of
Political and Social Science, 644, 20-39.
Bernardes,
C. B. (2020). Uso do Twitter para engajamento político: análise dos perfis das
assembleias legislativas da Região Sudeste. Revista
Compolitica, 10(3), 5-48. https://doi.org/10.21878/compolitica.2020.10.3.411
Bernardes,
C. B. (2021). Possibilidades e Obstáculos na Gestão de Perfis em Redes Sociais
pelas Assembleias Legislativas de Região Sudeste do Brasil. Revista Eletrônica do Programa de
Pós-Graduação da Câmara dos Deputados, 14(35), 12-38. https://doi.org/10.51206/e-legis.v14i35.615
Bernardes, C. B. (2023) Parlamentares
no Twitter: construção de identidade política pelas presidentas de comissões
permanentes da Câmara dos Deputados. Revista Antropolítica, 55(1), e56049, 1.
Bernardes, C. B. (2024) Performance about Gender
Political Violence by Brazilian Federal Deputies. Conferencia: European
Conference on Politics and Gender, Ghent University, Gante, 8-10 de julho.
Bernardes,
C. B. (2025) Parlamentares Mulheres Neoconservadoras: A Construção da Identidade
Política por Deputadas Federais Brasileiras. Ponencia: VI Encontro Internacional Participação, Democracia
e Políticas Públicas, UnB, Brasília (DF), 6-9 de maio.
Bernardes,
C. B. & Fontes, G. S. (2024) Identidades Políticas das Deputadas Federais
Brasileiras no Twitter. Ponencia: VII Congresso do INCT.DD, Salvador, 11-14 de
novembro.
Bernardes, C.
B.,
Cornwall, A., Crewe, E. & Hoyler, T. L. (2025) Collaborative reflexive
inquiry into parliaments - Ethnographers negotiating during research on
politics, in Chibois, J. & Shapiro, S. (Org.). Doing Fieldwork in Centres of Power - The Case of Deliberative
Assemblies.Routledge, 1, 1-18.
Biroli, F., Machado, M. D. C. &
Vaggione, J. M. (2020). Gênero,
neoconservadorismo e democracia. Boitempo.
Bolognesi,
B., Ribeiro, E. & Codato, A. (2023). Uma nova classificação ideológica dos
partidos políticos brasileiros. Revista
Dados, 66(2), 2-31. https://doi.org/10.1590/dados.2023.66.2.303
Bossetta,
M. (2018). The digital architectures of social media: comparing political
campaigning on Facebook, Twitter, Instagram, and Snapchat in the 2016 U.S.
election. Journalism & Mass
Communication Quarterly, 95(2), 471-496. https://doi.org/10.1177/1077699018763307
Braga,
S. S. (2013). O Uso das Mídias Sociais é Um Bom Preditor do Sucesso Eleitoral
dos Candidatos? Uma análise das campanhas on-line dos vereadores das capitais
das regiões sul, sudeste, e nordeste do Brasil no pleito de outubro de 2012. Revista Política Hoje, 22(2), 125-148.
Braga,
S. S. & Carlomagno, M. C. (2018). Eleições como de costume? Uma análise
longitudinal das mudanças provocadas nas campanhas eleitorais brasileiras pelas
tecnologias digitais (1998-2016). Revista
Brasileira de Ciência Política, 26, 7-62. https://doi.org/10.1590/0103-335220182601
Brasil. (2021)
Ley 14.192, de 4 de Agosto de 2021. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14192.htm
Bourdieu, P.
(2005) The political field, the social science field, and the journalistic
field', in R. Benson & E. Neveu (eds.) Bourdieu
and the journalistic field. Polity Press, 29-47.
Bourdieu, P. (2010) A dominação masculina. Bertrand Brasil.
Burson
C. & Wolfe. (2018). Twiplomacy Study
2018. https://www.twiplomacy.com/twiplomacy-study-2018
Cesarino,
L. (2020) Como vencer uma eleição sem sair de casa: a ascensão do populismo
digital no Brasil. Revista Internet &
Sociedade, 1(1), 91-120.
Cook, J. M. (2017) Twitter Adoption and Activity in U.S.
Legislatures: A 50-State Study. American Behavioral Scientist, 61(7),
724-740. DOI: 10.1177/0002764217717564.
Dalsgaard.
S. (2016). The Ethnographic Use of Facebook in Everyday Life. Anthropological Forum, 26(1), 96-114. https://doi.org/10.1080/00664677.2016.1148011
Dietze, G., Roth, J.
(Ed.). (2020) Right-Wing Populism and
Gender: European Perspectives and Beyond. Transcript Verlag.
Enli,
G. (2015) Mediated authenticity. How the
media constructs reality. Peter Lang.
Enli,
G. & Rosenberg, L. T. (2018). Trust in the Age of Social Media: Populist
Politicians Seem More Authentic. Social
Media + Society, 4(1), 1-11. https://doi.org/10.1177/2056305118764430
Enli,
G. S. & Skogerbø, E. (2013). Personalized campaigns in party-centred
politics. Twitter and Facebook as arenas for political communication. Information, Communication & Society,
16(5), 757–774. https://doi.org/10.1080/1369118X.2013.782330.
Ferraz,
C. P. (2019). A etnografia digital e os fundamentos da Antropologia para
estudos em redes on-line. Aurora. Revista
de Arte, Mídia e Política. 12(35), 46-69.
https://doi.org/10.23925/v12n35_artigo3.
Fuchs,
T. & Schäfer, F. (2020). Normalizing misogyny: hate speech and verbal abuse
of female politicians on Japanese Twitter. Japan
Forum, 33(4), 553-579. https://doi.org/10.1080/09555803.2019.1687564.
Hine,
C. (2005). Virtual methods: issues in
social research on the Internet. Berg Publishers.
González, A. K., & Ferré-Pavia, C.
(2023). Women politicians in Colombia succeed on Twitter – depending on their
ideology. The Loop.
https://theloop.ecpr.eu/women-politicians-in-colombia-succeed-on-twitter-depending-on-their-ideology/
Kováts, E., Põim,
M. (Ed.). (2015) Gender as symbolic glue.
The position and role of Conservative and Far Right Parties in the Anti-gender
mobilizations in Europe..FEPS.
Lacerda,
M. B. (2019). O novo conservadorismo
brasileiro. Ed. Zouk.
Leidig,
E. & Bayarri, G. (2022). Not Your Grandma’s Fascism: Fame, Femininity, and
Race in Far-Right Postcolonial India and Brazil. Social Politics, 30(1), 239-267.
https://doi.org/10.1093/sp/jxac013
Lopez,
A., Vidal, M. V. & Coelho, C. (2016). Raio-X
do Congresso nas Redes Sociais. Medialogue Digital. https://pt.slideshare.net/slideshow/pesquisa-medialogue-raiox-do-congresso-nas-redes-sociais-2016/75687548?from_search=0
Mano, M; K. (2020). Atuar como mulheres: um olhar sobre a
política institucional. Ed. Appris.
Markham, A.N.
(2020) Doing ethnographic research in the Digital age, in P. Leavy (ed.) The Field of Qualitative Research. Oxford University Press.
Marques,
F. P. J. A., Aquino, J. A. & Miola, E. (2014). Parlamentares, representação
política e redes sociais digitais: perfis de uso do Twitter na Câmara dos
Deputados. Opinião Pública, 20(2),
178-203. https://doi.org/10.1590/1807-01912014202178
Mitozo,
I., Massuchin, M., & Carvalho, F. (2017). Debate político-eleitoral no
Facebook: os comentários do público em posts jornalísticos na eleição
presidencial de 2014. Opinião Pública,
23(2), 459-484. https://doi.org/10.1590/1807-01912017232459
Murta,
F., Ituassu, A., Capone, L., Leo, L. & La Rovere, R. (2017). Eleições e
mídias sociais: Interação e participação no Facebook durante a campanha para a
Câmara dos Deputados em 2014. Revista
Compolítica, 7(1), 47-72. https://doi.org/10.21878/compolitica.2017.7.1.111
Murthy,
D. (2008). Digital ethnography: An examination of the use of new technologies
for social research. Sociology,
42(5), 831-855. https://doi.org/10.1177/0038038508094565
Nemer,
D. (2021). Disentangling Brazil’s Disinformation Insurgency, NACLA Report on the Americas, 53(4),
406-413. https://doi.org/10.1080/10714839.2021.2000769
Orgad,
S. (2005). From Online to Offline and Back: Moving from Online to Offline
Relationships with Research Informants. In
C. Hine (Ed.) Virtual Methods. Issues
in Social Research on the Internet. Berg Publishers. 51-65
Palmeira,
M. (1996). Política, facções e voto. In M. Palmeira & M. Goldman (Eds.) Antropologia, Voto e Representação Política.
Contra Capa. 41-56.
Palmeira,
M. & Barreira, C. (2004). Política no
Brasil: visões de antropólogos. Relume Dumará.
Peirano,
M. (2014) Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, Porto
Alegre, 20(42), 377-391. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-
71832014000200015
Pink, S., Horst, H., Postill, J., Hjorth, L., Lewis, T.
& Tacchi, J. (2015). Digital
Ethnography: Principles and Practice.
SAGE Publications.
Postill,
J. & Pink, S. (2012). Social media ethnography: the digital researcher in a
messy web. Media International Australia,
145(1), 123-134. https://doi.org/10.1177/1329878X1214500114.
Rai, S.M.
(2017) Performance and Politics: An Approach to Symbolic Representation, Politics, Groups, and Identities, 5(3),
506-511.
Rai, S. &
Spary, C. (2019) Performing
Representation: Women Members in the Indian Parliament. Oxford University Press.
Rossetto,
G. P. N. (2018). Fazendo política no Twitter: como os efeitos estimados das
mensagens influenciam as ações e os usos da plataforma. Revista Compolítica, 8(1), 97-122. https://doi.org/10.21878/compolitica.2018.8.1.141
Rossetto,
G., Carreiro, R. & Almada, M. P. (2013) Twitter e comunicação política:
limites e possibilidades. Revista
Compolítica, 3(2), 189-216. https://doi.org/10.21878/compolitica.2013.3.2.49
Sanders,
T. (2005) Researching the Online Sex Work Community. In C. Hine (Ed.) Virtual
Methods. Issues in Social Research on the Internet. Berg Publishers. 67-79.
Sarmento, R., Bernardes, C. B. & Fontes, G. S. (2023) Discursos
de deputadas federais sobre mulheres: espaço institucional e mídias sociais. Revista
Estudos Feministas, Florianópolis, 31(2), e92871.
Saward, M. (2006). The Representative
Claim. Contemporary
Political Theory, 5(3), 297-318. https://doi.org/10.1057/palgrave.cpt.9300234
Saward, M. (2014). Shape-shifting
Representation. The American
Political Science Review, 108(4), 723-736.
Seta, G. de
(2020) Three Lies of Digital Ethnography. Journal
of Digital Social Research, 2(1), 77-97.
Solano, E., Rocha, C. & Sendretti, L. (2023) Mulheres de
extrema-direita: empoderamento feminino e valorização moral da mulher. Caderno CRH, Salvador, 36, e023040. DOI:
10.9771/ccrh.v36i0.55443.
Sousa,
S. A. de. (2020). Participação Política
nas Mídias Sociais: uma análise dos comentários sobre a Reforma da Previdência
nas páginas dos deputados mais influentes do Facebook. Dissertação.
Dissertação de Mestrado Profissional em Poder Legislativo. Centro de Formação,
Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados.
Southern,
R. & Harmer, E. (2021). Twitter, incivility and “everyday” gendered
othering: an analysis of tweets sent to UK members of parliament. Social Science Computer Review, 39(2),
259-275. https://doi.org/10.1177/0894439319865519
Thorson,
K., Medeiros, M., Cotter, K., Chen, Y., Rodgers, K., Bae, A., & Baykaldi,
S. (2020). Platform Civics: Facebook in the Local Information Infrastructure. Digital Journalism, 8(10), 1231-1257. https://doi.org/10.1080/21670811.2020.1842776
Unkel,
J. & Kümpel, A. S. (2022) Patterns of Incivility on U.S. Congress Members’
Social Media Accounts: A Comprehensive Analysis of the Influence of Platform,
Post, and Person Characteristics. Frontiers
in Political Science, 4, 1-11. https://doi.org/10.3389/fpos.2022.809805
Usher,
N., Holcomb, J. & Littman, J. (2018) Twitter Makes It Worse: Political
Journalists, Gendered Echo Chambers, and the Amplification of Gender Bias. The International Journal of Press/Politics,
23(3), 324-344. https://doi.org/10.1177/1940161218781254
Van
Vliet, L., Törnberg, P. & Uitermark, J. (2020) The Twitter parliamentarian
database: Analyzing Twitter politics across 26 countries. PLoS ONE, 15(9), 1-24. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0237073
Varis,
P. (2015). Digital ethnography. In A. Georgakopoulou & T. Spilioti, The Routledge Handbook of Language and
Digital Communication. Routledge.
Vergè, T.
(2022) A chamber of one’s own: institutional claim-making on gender equality
and the symbolic role of parliaments. Politics
& Gender, 18(1), 99-125. https://doi.org/10.1017/S1743923X20000252
Verge, T., & Pastor, R. (2018).
Women’s Political Firsts and Symbolic Representation. Journal of Women, Politics &
Policy, 39(1), 26-50. https://doi.org/10.1080/1554477X.2016.1268878
Yarchi,
M. & Samuel-Azran, T. (2018) Women politicians are more engaging: male
versus female politicians’ ability to generate users’ engagement on social
media during an election campaign. Information,
Communication & Society, 21(7), 978-995. https://doi.org/10.1080/1369118X.2018.1439985
[1] A pesquisa “Etnografia Global
Comparada de Parlamentos, Políticos e Cidadãos” foi realizada entre os anos de
2019 e 2024, sob coordenação de Emma Crewe, e recebeu financiamento do Conselho
Europeu de Investigação (Research European Council) no âmbito do programa de
investigação e inovação Horizons 2020 da União Europeia (Número do contrato:
8349986).
[2]Ver https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/11/01/zambelli-twitter-conta-suspensa.htm.
[3] Ver: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2022/noticia/2022/03/05/em-audios-arthur-do-val-disse-que-ucranianas-sao-faceis-porque-sao-pobres-ouca.ghtml
[4] Segundo Biroli,
Machado e Vaggione (2020), a expressão começou a ser usada por intelectuais
conservadores argentinos e estadunidenses em meados da década de 1990, passando
a ser usada em um documento da Igreja Católica em 1998. A partir daí o termo
ingressou no vocabulário político para se referir de forma ampla e crítica ao
discurso feminista, considerando que o termo “gênero” seria uma invenção da
esquerda, de caráter ideológico.